Perdoar

Francisco Martins Rodrigues

29 de Dezembro de 1980


Primeira Edição: Em Marcha, 29 de Dezembro de 1980

Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando A. S. Araújo.

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Não sei se foi da quadra do Natal, deu-me para pensar no destino dos pides.

Diga-se desde já que será difícil encontrar na história moderna exemplo de maior maturidade cívica do que o perdão dos pides em Portugal. Foi um desafio de generosidades nunca visto, cada um a querer mostrar que era superior A mesquinha vingança

Democratas insignes transformaram a memória dos mártires em romagens piedosas, cheias de lágrimas e perdão. Generais humanistas concluíram que seria desestabilizador investigar os crimes da PIDE em África. Pensadores agudos interrogaram se não seremos afinal todos um pouco culpados pelo fascismo. Carcereiros condoídos abriram-lhes as portas (alguma vez chegaremos a saber quem deu a fuga aos 80 de Alcoentre?) Juízes bondosos encontraram mil razões para os mandar em paz com penas suspensas. Ai está como se apaga meio século de fascismo.

De tal maneira que as vitimas quase receiam criar mau ambiente com a sua presença incómoda. E que alguém pergunta enfadado o que interessa ir agora saber se o general Delgado foi morto por Pedro ou por Paulo, uma vez que ninguém o pode tornar à vida.

(Já pensaram o que seria, se, desde o 25 de Abril de 1974, tivesse começado a passar na televisão um ex-preso político por dia, a contar o seu caso? Já pensaram que ainda hoje haveria milhares à espera de vez)

O silêncio é de tal ordem que até os pides acham demais e resolvem fazer-se lembrados. Foi assim que o ex-inspector Fernando Gouveia, torturador de serviço durante mais de 30 anos, criminoso com várias mortes às costas, atirou cá para fora com as suas memórias. Modestamente, põe em foco a sua dedicação e argúcia ao serviço da ordem social, nega escandalizado quaisquer violências e até se diverte a cuspir sobre a memória das vitimas.

E afinal, porque não? Iríamos negar lhe o sagrado direito de se exprimir?

Aqueles que perguntam desalentados para que serve continuar a ser de esquerda, gostaria de responder: para sermos a voz que recusa a reconciliação dos cravos que nos mantém amarrados a meio século negro. Quanto mais não fosse, para continuarmos a ser os que não perdoam à PIDE


Inclusão 10/06/2018