Balsemão Merece

Francisco Martins Rodrigues

24 de Junho de 1981


Primeira Edição: Em Marcha, 24 de Junho de 1981

Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando A. S. Araújo.

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capa

Um jornal alemão, o "Die Welt", compara elogiosamente os operários portugueses aos japoneses, porque se contentam com pouco e trabalham que se fartam. E cita, para abrir o apetite aos capitais alemães que queiram experimentar os nossos ares, o exemplo da fábrica da Grundig, em Braga, cujos lucros no último ano foram 15% mais altos do que os da empresa-mãe, na Alemanha.

Este prestigio internacional da carne humana portuguesa, que já é equiparada à japonesa, deve-se em boa parte à visita recente do dr. Balsemão à República Federal, onde assinou um "acordo de protecção de investimentos" — os magnates alemães terão novas facilidades para arrancar couro e cabelo aos operários portugueses.

Até aqui, tudo normal. Toda a gente sabe que os operários se inventaram para ser espremidos até ao tutano. Ninguém tem culpa que não tenham escolhido a carreira de gestores ou ministros. Além de que sempre passaram mal, já estão habituados..

E toda a gente sabe que o papel de um primeiro-ministro é criar boas condições para a ordenha das vacas leiteiras — quer dizer, dos operários. É a profissão dele, não há que levar a mal. Com certeza ninguém iria exigir que o Balsemão passasse os dias agarrado a uma máquina, a dar o litro. Vê-se-lhe logo pela cara que não se ajeitava. Até era capaz de adoecer.

Tudo normal, portanto. Mas como nunca faltam os invejosos, aconteceu que o Cavaco e a Helena mais o Freitas e o Lucas deram em fazer a vida negra ao governo. E o Balsemão abana.

Que há-de fazer a oposição num caso destes? O Cunhal, muito fino, muito rato, chamou o Brito lá ao gabinete e disse-lhe mais ou menos

"Lá em Évora, no outro dia, reclamei a queda do governo, porque tinha mesmo que ser, com aquela gente toda a gritar. Mas temos que ser realistas. Agora que os reaccionários estão a querer deitar o Balsemão por terra, vamos nós fazer o mesmo? Nessa não caio eu! Seria ajudar a reacção! Portanto, a partir de hoje quero umas palavras de ordem mais macias, que falem só na necessidade de uma nova política e tal e coisa. Abrir uma porta de saída ao Balsemão. que diabo!"

Dito e feito. Os papéis do PCP e da CGTP já ai andam. Mas a ideia está torta, como tudo o que sai daquela desgraçada cabeça. É precisamente o contrário: se o Balsemão vier a ser tombado porque os trabalhadores recusam gramá-lo, haverá esperanças de meter um travão à ofensiva da direita. Mas se cair só pelas lutas de palácio com o COS, ai é que há todas as hipóteses de termos às costas um governo pior ainda.

Quero eu dizer na minha que ninguém deve ter problemas de consciência em ir gritar para a rua, no sábado: "Fora, fora, fora o Balsemão!" Ele merece.


Inclusão