Trotskismo Fez a Sua Época

Francisco Martins Rodrigues

20 de Agosto de 1990


Primeira Edição: Diário da Lisboa, 20/8/1990

Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando A. S. Araújo.

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Meio século esperaram os trotskistas para ver reabilitada na URSS a memória de Trotsky. Agora, porém, que esse dia chegou e os dirigentes soviéticos reconhecem o papel por ele desempenhado na revolução e admitem a autoria do seu assassinato, dá-se um fenómeno insólito: a reabilitação de Trotsky mistura-se com a reabilitação da democracia burguesa e do lucro privado. A longamente esperada «revolução política antiburocrática» é afinal burguesa a cem por cento — um desenlace que nunca julgaram possível nem Trotsky nem os seus seguidores.

Queriam ver no capitalismo de Estado uma forma «degenerada» ou «deformada» do regime operário, uma porta ainda aberta para o socialismo; agora recebem sobre a cabeça a catadupa de desmentidos, desde a URSS à Polónia, da Nicarágua a Cuba. E isso está a fazer esfumar a imagem de Trotsky nas sombras do passado, como um rival infeliz e um gémeo de Staline.

Paradoxo ou não, o trotskismo beneficiou da campanha de denegrimento do stalinismo que o alimentava caluniando-o. Hoje, ele aparece em corpo inteiro como um condensado de todas as contradições do seu inspirador: os oceanos de fraseologia extremista a encobrir a flutuação ideológica e a moderação de propósitos; a vocação para o ofício de casamenteira entre as «forças de esquerda»; a mania de pregar moral à social-democracia — numa palavra, o desejo de se aproximar da classe operária sem perder a aprovação da pequena burguesia, que foi o que deu cabo de Trotsky, apesar de todo o seu talento.

O trotskismo sobrevivia (mal) como bandeira de uma certa esquerda, cujo ofício consistia em situar-se entre a social-democracia e os regimes de Leste. Agora que  o «movimento comunista internacional» se dissolve, o seu espaço de manobra reduz-se. Como expressão dos acessos de rebeldia da juventude estudantil em períodos de crise, talvez tenha algum futuro. Como corrente do pensamento revolucionário, julgo que é um mal entendido que fez a sua época.


Inclusão 10/06/2018