A Segunda Morte de Chico Miguel

Francisco Martins Rodrigues

15 de Junho de 1998


Primeira Edição: Política Operária nº 15, Mai-Jun, 1998
Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida
Transcrição: Ana Barradas
HTML: Fernando A. S. Araújo.
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A morte, aos 80 anos, de Francisco Miguel Duarte, fez perder à direcção do PCP talvez o mais destacado sobrevivente dos seus tempos heróicos. Com 21 anos passados nas cadeias e no Tarrafal, quatro evasões audaciosas, a vida toda entregue ao partido, ele tornara-se uma figura lendária de resistente.

Mas era já só uma sombra do velho Chico Miguel de outros tempos. Reduzido a uma função decorativa no Comité Central, ninguém diria que este velhinho apagado que era mostrado nos comícios e que produzia lamentáveis livros de versinhos “populares” fora em tempos um combatente comunista e antifascista indomável. É essa trajectória de derrocada que interessa sobretudo lembrar no momento da sua morte, para entender como foi possível.

Nos anos 40, se os operários do partido respeitavam unanimemente Álvaro Cunhal pela sua “cabeça”, era contudo para Francisco Miguel que ia o seu afecto caloroso. Não apenas pela sua origem proletária e pela sua simplicidade, mas porque ele era como que um concentrado do ódio de classe à burguesia.

Nas cadeias fascistas, onde passou boa parte da sua vida, ele era o mestre infatigável das novas gerações de comunistas, a quem transmitia os rudimentos do marxismo e sobretudo a sua lucidez cortante, que não consentia ilusões sobre a luta de classes. No Aljube, em Caxias, em Peniche, ouvi-lhe repetir com paixão sempre os mesmos argumentos: o que faz a força dos capitalistas não são as armas deles mas a estúpida esperança que conseguem espalhar no nosso campo em meios-termos que não existem; quando chegar a hora da verdade, ou nós os liquidamos, ou eles massacram milhares dos nossos para se conservarem no poder; os democratas que querem manter a luta contra o Salazar nos limites da ordem têm mais medo do povo do que do fascismo; querem servir-se de nós como escada, e o pior é que há comunistas tão parvos que estão prontos a fazer-lhes esse frete…

Mas os tempos não iam propícios à lucidez. Com as forças operárias revolucionárias a decrescer e o reformismo burguês a invadir tudo, Chico Miguel começava a fazer figura de visionário, mesmo entre os seus camaradas. A grande viragem reformista da União Soviética no final dos anos 50 foi um golpe de que nunca mais se recompôs. Romper com a URSS era coisa que estava fora dos seus horizontes. E submeteu-se.

Em 1960 ainda ridicularizava com ironia cáustica a linha do afastamento pacífico de Salazar e da “reconciliação nacional”. Depois, levado para Moscovo, foi encontrando argumentos para aceitar o “novo pensamento” e conviver com o revisionismo. Em meados dos anos 60, foi talvez o seu último sobressalto de velho revolucionário: retornou à clandestinidade, onde veio dirigir as acções da ARA contra a guerra colonial.

Por fim, com o 25 de Abril e a euforia “democrática nacional” que parecia vir dar razão às teses de Cunhal, Francisco Miguel rendeu-se e deixou definitivamente de pensar como comunista. Destroçado ideologicamente, deixou-se usar como um dócil instrumento pela linha reformista. Aparecia nas reuniões e comícios a papaguear conselhos e alertas contra o “esquerdismo” e a justificar todas as cedências do partido.

Assim morreu esquecido pela classe operária aquele que fora um dos seus melhores representantes. A sua fibra de lutador não foi suficiente para o salvar da lenta degeneração do partido comunista e do movimento comunista internacional, que arrastou na voragem do reformismo o exército mundial proletário que fora posto de pé pelo leninismo. Razão tinha ele quando respondia, noutros tempos, rindo maliciosamente, aos que o acusavam de “esquerdista”: “O perigo é rendermo-nos à burguesia.”


Inclusão 23/05/2018