A Peste

Francisco Martins Rodrigues

Junho de 1998


Primeira Edição: Política Operária nº 15, Mai-Jun 1998
Fonte: Francisco Martins Rodrigues - Escritos de uma vida
Transcrição: Ana Barradas
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: Licença Creative Commons licenciado sob uma Licença Creative Commons.

No fim da guerra mundial, era difícil encontrar na Alemanha quem reconhecesse sem relutância a bestialidade do genocídio nazi. Uns porque se tinham “limitado a cumprir ordens”, outros porque “não sabiam”, outros ainda porque teimavam em duvidar – todos se refugiavam em desculpas para não assumir a sua parte na responsabilidade colectiva pela montagem da máquina de extermínio.

Nisto pensámos ao assistir ao debate sobre as guerras coloniais, finalmente promovido pelo programa “Concordo ou talvez não”, depois dos tragicómicos adiamentos e arranjos impostos pela directora da produção, a senhora de Nuno Rocha.

Lado a lado, em civilizado diálogo, defensores e opositores do colonialismo trocaram piropos em estilo parlamentar, como se o que estivesse em causa fosse uma ninharia e não um crime colectivo.

A tese fascista foi defendida por um brigadeiro e um coronel que, abordando a guerra de um ponto de vista “estritamente técnico”, a consideraram um bom trabalho; se não fosse a intromissão das super­potências, o “inimigo terrorista” teria sido batido e hoje reinaria a paz na África portuguesa.

No campo oposto (?), tivemos um capelão que falou com orgulho dos seus problemas de consciência, uma senhora que contou pequenas histórias sentimentais para valorizar o seu sofrimento como mulher de um oficial, e o inevitável Manuel Alegre, sempre o mesmo demagogo profissional, a condenar com brio a acção da PIDE para assumir com orgulho o seu passado de antigo combatente.

A responsabilidade pelos milhares de mortos, pelas aldeias queimadas a napalm, pelos massacres e torturas, pelos horrores dessa guerra infame que todos nós não soubemos impedir, evaporou-se na animação do diálogo.

E foi este o debate a que tivemos direito, treze anos depois do fim das guerras. Os ingénuos incuráveis, que reverenciam tudo o que soe a pluralismo, não vão perceber que assistiram a uma sessão de propaganda colonialista. Os brigadeiros e os coronéis, esses, vão continuar a mover as pedras, com insolente segurança, com vista ao próximo massacre técnico.


Inclusão 23/05/2018