O Estranho Caso da Morte de Karl Marx

Francisco Martins Rodrigues

Setembro/Outubro de 2001


Primeira Edição: Política Operária nº 81, Set.Out 2001

Fonte: Francisco Martins Rodrigues Escritos de uma vida

Transcrição: Ana Barradas

HTML: Fernando Araújo.

Direitos de Reprodução: licenciado sob uma Licença Creative Commons.


capa

O estranho caso da morte de Karl Marx, Ângelo Novo. Edições Mortas. Apartado 4602, 4011 Porto Codex, 120 págs. 2.000$.

Ângelo Novo, colaborador da nossa revista vai já para dez anos, conta-se entre os muito poucos que no nosso pais entendem o marxismo corno um trabalho permanente de investigação e de crítica. Inconformado com a tradicional mastigação dos clássicos que tem feito as vezes de “marxismo-leninismo”, lê muitíssimo, reflecte, escreve, vasculha a Internet, polemiza. Tem estado na origem de polémicas importantes que atravessaram as páginas da P.O. (com Claude Bitot, com Manuel Raposo, comigo próprio) e, para além do aceno ou do erro das suas opiniões em cada caso e de uma certa truculência polémica, nunca deixou de suscitar maior reflexão, numa área em que o pensamento crítico se congelou ao longo de décadas.

Este volume reúne sete artigos, alguns dos quais retomando temas já por si abordados nesta revista. Desde a reflexão em torno de como poderá ser feita a transição para o comunismo até à crítica, particularmente certeira, das noções agora em moda do “ultra-imperialismo” e do multiculturalismo, é vasto o leque dos temas tratados.

Bem em cheio no alvo, e da máxima actualidade, a crítica que A.N. faz ao ressurgido conceito de “ultra-imperialismo”, agora apoiado na grande novidade da globalização. Fala-se da globalização como uma teia de capital apátrida, sem qualquer dependência nacional, que estaria a dissolver os Estados e a funcionar como um governo-sombra à escala mundial. Mas, como observa Novo, “os únicos Estados-nação verdadeiramente postos em xeque são os dos países débeis e periféricos. Os Estados imperialistas, essas, mais não fazem que rearmar-se e reforçar os seus instrumentos de intervenção”. E alerta que se a hegemonia militar da superpotência americana alimenta a ilusão da pacificação das rivalidades inter-imperialistas, estas não deixam de progredir de forma irreprimível. Temos que nos preparar para a possibilidade de futuros afrontamentos militares inter-imperialistas, porque “nada nem ninguém pode escapar indefinidamente à sua natureza”.

Acutilante também a crítica à moda “politicamente correcta” do multi-culturalismo. Apresentada sob tons simpáticos, progressistas e respeitadora das diversidades culturais (o africano ou o asiático não teriam nada a esperar da ciência, da filosofia ou da literatura ocidentais, pois teriam os seus próprios sistemas de valores), a tese do multiculturalismo visa “levar os povos do terceiro mundo e as comunidades imigrantes nos países do centro à exclusão voluntária dos benefícios da tecnologia e do saber mais avançado”, de modo a encerrarem-se em bolsas de pobreza, ignorância e desespero. O multiculturalismo, acusa Novo com razão, é o novo nome do racismo.

Bem menos convincentes para a pretendida “renovação do marxismo” me parecem os escritos de pendor filosófico incluídos neste volume. E, se não me reconheço competência em matéria filosófica, duvido muito que o contributo de Althusser para o pensamento marxista mereça a comovida e reverente homenagem que Novo lhe presta.

No “Diálogo sobre a sociedade futura” procura AN. lançar as bases teóricas da transição para o comunismo, não se conformando com o facto de este ser um terreno ainda por desbravar no pensamento marxista. Se a especulação é em si estimulante, parece-me a empresa ambiciosa em demasia. Basta ver como os dados da questão se alteraram ao longo do último século e meio para compreendermos porque não se ocuparam os grandes pensadores marxistas com ela. Na realidade, o que tem travado a renovação do marxismo é outra coisa: é a dificuldade em clarificar a via para o derrube da burguesia e para a instauração da ditadura do proletariado; é a dificuldade do proletariado em conquistar independência política na sua luta contra o capitalismo e deixar de ser um joguete da burguesia “democrática”. Sobre este aspecto gostaríamos de encontrar mais reflexões neste volume, até porque só nessa discussão se destrinça o antagonismo entre revolução e reformismo. Novo, porém, ao mesmo tempo que rejeita como vãs elucubrações sectárias os debates em torno da experiência passada ou da reconstrução do movimento comunista, e que aponta a via da prática como a única resposta, não se coíbe de nos apresentar como óbvios os seus próprios princípios (pp. 53-56), demasiado genéricos para servir de base a uma reorganização comunista.

Ainda dois reparos. Se “a vontade de transformação comunista não pode ser confundida com o ódio aos privilegiados”, como escreve Novo a dado passo, o certo é que sem esse ódio o proletariado não tem nada. É preciso dizê-lo. Segundo: não fica bem neste conjunto de textos a desnecessária concessão ao espírito social-democrata quando a URSS de Staline e o nazi-fascismo são postos em paralelo como regimes de “dirigismo estatal” (p. 14).


Inclusão 21/08/2019